28 julho 2017

Reflorescer


Eu caminhava sozinha pela rua, o vento era forte e me sentia como uma folha solta, dançando ao som do vento, seguindo sua melodia pelo forte sussurrar de suas ondas em desalento. O vento queria que meu corpo o acompanhasse, mas minha alma estava triste e pesada demais para isso.

Foi quando em meio a tantas pessoas cheias e vazias de si, que encontrei uma massa concentrada de pessoas de frente a uma florista. Ela estava com algumas flores e rosas e tinha que atender a todos sozinha.

Todos queriam rosas, eu como não era folha, queria ser flor, mas não queria ser a rosa, que todos ansiavam. Nunca gostei de ser o centro das atenções, prefiro ficar sozinha e reparar nos outros, nunca ser reparada...

Mas acontece que eu ia seguir meu destino, sendo conduzida novamente pelo vento, porém dentre o amontoado de rosas azuis, vermelhas, brancas, rosas e amarelas eu encontrei a minha flor, eu me encontrei. E que espanto! “Moça, eu quero essa florzinha aqui, oh!” (Apontando o dedo eu a indicava), mas ninguém me ouvia. Eu era como aquela flor no meio das rosas.


Eu era a flor que ninguém queria, porque era pálida e sem graça, também não tinha espinhos. Como se defender do mundo então? Eu era a flor sem pétalas, sozinha, no canto sem ser reparada.

Ah, como eu queria poder pegá-la e regá-la todos os dias, ela seria a delicadeza que se materializaria em mim, mas ninguém queria saber disso. Até porque é apenas uma flor, eles irão comprar todas as rosas, dar de presente para o seu “amor” ou colocar na lápide de alguém querido ou apenas por se sentirem na obrigação de ter que deixar algo, porque nunca lhes deram algo em vida, as pétalas poderiam compensar o que a vida não fez (pensavam). Pobres iludidos.

Fiquei à espera, meu medo era que alguém a pedisse e finalmente fosse ouvida, mas eu sabia no fundo, que ela seria minha, porque ela era eu, e eu era ela. 


Depois que todos se foram (pessoas e rosas) Enfim, repararam em mim, finalmente nós duas fomos enxergadas! Pelo menos eu achava que sim, mas eis que antes que eu falasse, a florista falou: “Moça, vendemos todas as rosas! Amanhã eu voltarei com mais delas...” Em êxtase eu respondi “Mas a minha flor ainda está aí, é ela que quero levar.” A florista então sorriu e disse “Você a merece...”

Confesso que não entendi de imediato, talvez porque só entenderia depois. Há coisas que levam tempo pra se entender. Voltei no dia seguinte e só tinha rosas, a minha flor era única no mundo e ela sabia disso bem mais do que eu.

A flor fica na janela do meu quarto, mas desde que ela chegou aqui suas pétalas não são as mesmas, cada dia, uma pétala a menos, e eu não entendo. Entendi as palavras da florista, porque depois compreendi que ela queria ver até onde eu poderia esperar...

A flor era da florista, não estava à venda, mas eu não sabia e fiquei. A florista então viu que a flor deveria ser minha. A pobrezinha sente saudade da antiga dona, mas aos poucos tá ganhando cor, assim como eu ela está despetalando para ressurgir e ser outra. Floresceremos juntas.


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Esse texto maravilhoso é de autoria da minha amiga querida, Fernanda Paulo Albuquerque, que ouvindo meus lamentos sobre a minha plantinha, fez de pronto e imediato esse texto-poesia cheio de sensibilidade. Fer tem um talento incrível com as palavras e me emocionou muito com essa história, que me leu de repente. Te agradeço, minha amiga! 💛

Ah, sobre a plantinha de flor, chama Bom Dia, e ela está apenas mudando. Coloquei ao sol e ela deu uma melhorada. Vai ficar forte e cheia de flores de novo. Era sol que faltava! 💗

3 comentários:

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