01 outubro 2017

Meu Satélite


Quando anoitece quase que de repente e me sinto sozinha, te vejo em busca de completude e me enamoro por cada lesão do teu corpo celeste. A luz que tu veste, me reverte.

Ah se soubesses que espero pousar em ti quando fita em mim um flash pálido para dourar-me as dores da existência.

E quando ninguém percebe a minha aparição terrestre, tu bordas em mim teu brilho, como se fosse mandado para estar a me observar.

De dia me encontro em ânsia por ver-te em amarelo, a provocar-me torcicolos, querendo te admirar. Satélite meu, em solitude te imito.

Só sou só porque não habito nas estrelas.

06 setembro 2017

Ciclos primaveris



Na dor me vejo florescer
Pulsante
Latente
Dor interior
Ciclos entre tons vibrantes e crus
De amor escarlate
Intensidade
Intencional
Sem querer
É época de muda
E dói florescer
Vivo, resisto
Sou raiz, sou ciclo
Sou flor, espinho
Ainda há primavera
Toda vez que doer


12 agosto 2017

Das coisas que eu deixei para trás


Das coisas que eu deixei para trás, a velha meia arrastão que não diz mais nada sobre mim, os álbuns do Justin Bieber, os desenhos que nunca concluí, os recibos de compras passadas, a caixinha de lembranças de 2010, o tumblr, que hoje diz mais sobre fotos rasas que sobre textos profundos, a coleção de etiquetas de roupas, o apego por lembranças materiais.

Ficou para trás os sutiãs de enchimento, as lágrimas de baixa estima, as flores tóxicas do caminho onde andei, os saltos que não me fazem mais mulher do que eu já sou, os arquivos empoeirados, a pinça de depilar o buço, o excesso de "amigos" nas redes sociais, as revistas teen com 500 mil dicas para agradar meninos, o lixo mental, o acúmulo dos remédios e as receitas.

Se ficou para atrás até o cachorro mais amado, os ursinhos de pelúcia que hoje provocam espirros, a camisa da banda preferida, o batom vermelho perdido do ônibus, porque não deixar lá também as mágoas de desamor, os receios com o corpo, os bloqueios sentimentais e o tabu de ser livre?

Das coisas que eu deixei para trás, ficou apenas o trivial, o pó das estrelas, as bonecas na prateleira, os tênis de caminhada, as fotos de luas, a flor seca dentro do livro de cabeceira, o aroma do sabonete alma de flores dentro da gaveta de meias, as linhas do crochê que ainda ei de aprender, a playlist de vídeos de ASMR no youtube, os desenhos pregados com durex na parede e a infinidade de momentos onde eu não tirei foto, mas que nunca esquecerei das fotografias do fato.

Das coisas que eu deixei para trás, a mais pesada foi o auto julgamento, aquela coisa que me empurrava para baixo quando tudo que eu queria era voar. Sai sem olhar para trás quando deixei aquela insegurança no passado e segui plena, sozinha, cheia de graça e luz.

10 agosto 2017

Lunar

Lua em câncer
Loba pulsante
Satélite das flores
Corta o cabelo na minguante
Na cheia chora
Uiva, ri, comemora
8 e 80, ao infinito e além
É venusiana, é eclipse
Mas é estrela também
Mais um ciclo
Dor, sangue santo
Do espaço se ouve
Cantarolando, dançando
Batendo asas, borboleteando
É luna, lunática
Circular, circunflexa, aguda, invisível
Tudo e nada
Estonteante, imperceptível
Lunar, loba, floral
Mulher afinal

28 julho 2017

Reflorescer


Eu caminhava sozinha pela rua, o vento era forte e me sentia como uma folha solta, dançando ao som do vento, seguindo sua melodia pelo forte sussurrar de suas ondas em desalento. O vento queria que meu corpo o acompanhasse, mas minha alma estava triste e pesada demais para isso.

Foi quando em meio a tantas pessoas cheias e vazias de si, que encontrei uma massa concentrada de pessoas de frente a uma florista. Ela estava com algumas flores e rosas e tinha que atender a todos sozinha.

Todos queriam rosas, eu como não era folha, queria ser flor, mas não queria ser a rosa, que todos ansiavam. Nunca gostei de ser o centro das atenções, prefiro ficar sozinha e reparar nos outros, nunca ser reparada...

Mas acontece que eu ia seguir meu destino, sendo conduzida novamente pelo vento, porém dentre o amontoado de rosas azuis, vermelhas, brancas, rosas e amarelas eu encontrei a minha flor, eu me encontrei. E que espanto! “Moça, eu quero essa florzinha aqui, oh!” (Apontando o dedo eu a indicava), mas ninguém me ouvia. Eu era como aquela flor no meio das rosas.


Eu era a flor que ninguém queria, porque era pálida e sem graça, também não tinha espinhos. Como se defender do mundo então? Eu era a flor sem pétalas, sozinha, no canto sem ser reparada.

Ah, como eu queria poder pegá-la e regá-la todos os dias, ela seria a delicadeza que se materializaria em mim, mas ninguém queria saber disso. Até porque é apenas uma flor, eles irão comprar todas as rosas, dar de presente para o seu “amor” ou colocar na lápide de alguém querido ou apenas por se sentirem na obrigação de ter que deixar algo, porque nunca lhes deram algo em vida, as pétalas poderiam compensar o que a vida não fez (pensavam). Pobres iludidos.

Fiquei à espera, meu medo era que alguém a pedisse e finalmente fosse ouvida, mas eu sabia no fundo, que ela seria minha, porque ela era eu, e eu era ela. 


Depois que todos se foram (pessoas e rosas) Enfim, repararam em mim, finalmente nós duas fomos enxergadas! Pelo menos eu achava que sim, mas eis que antes que eu falasse, a florista falou: “Moça, vendemos todas as rosas! Amanhã eu voltarei com mais delas...” Em êxtase eu respondi “Mas a minha flor ainda está aí, é ela que quero levar.” A florista então sorriu e disse “Você a merece...”

Confesso que não entendi de imediato, talvez porque só entenderia depois. Há coisas que levam tempo pra se entender. Voltei no dia seguinte e só tinha rosas, a minha flor era única no mundo e ela sabia disso bem mais do que eu.

A flor fica na janela do meu quarto, mas desde que ela chegou aqui suas pétalas não são as mesmas, cada dia, uma pétala a menos, e eu não entendo. Entendi as palavras da florista, porque depois compreendi que ela queria ver até onde eu poderia esperar...

A flor era da florista, não estava à venda, mas eu não sabia e fiquei. A florista então viu que a flor deveria ser minha. A pobrezinha sente saudade da antiga dona, mas aos poucos tá ganhando cor, assim como eu ela está despetalando para ressurgir e ser outra. Floresceremos juntas.


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Esse texto maravilhoso é de autoria da minha amiga querida, Fernanda Paulo Albuquerque, que ouvindo meus lamentos sobre a minha plantinha, fez de pronto e imediato esse texto-poesia cheio de sensibilidade. Fer tem um talento incrível com as palavras e me emocionou muito com essa história, que me leu de repente. Te agradeço, minha amiga! 💛

Ah, sobre a plantinha de flor, chama Bom Dia, e ela está apenas mudando. Coloquei ao sol e ela deu uma melhorada. Vai ficar forte e cheia de flores de novo. Era sol que faltava! 💗