01 dezembro 2017

Estou conhecendo alguém incrível

Imagem do Pinterest
Outro dia me peguei enfeitando-me toda, sem motivo especial. Era fim de tarde, após o banho do fim de um dia exaustivo e meus olhos brilhavam como faísca de uma fogueira em São João.

Me sentia flor, sorri para o espelho, suspirei. Queria estar linda e estava realmente. Sem batom ou lingerie nova, estava eu com um dos meus trajes de casa: camiseta de malha e uma saia de tecido muito leve, porém esbanjava um tipo de beleza da qual não se pode ver com os olhos.

O motivo de tal entusiasmo era o vislumbre por alguém que eu estava conhecendo melhor um dia no trem, no caminho para a capital. Enquanto mirava a paisagem ao redor da estrada de ferro, esse alguém estava comigo o tempo inteiro, respirava leve e tinha o olhar voltado para dentro. Dentro da minha alma.

Abri minha bolsa, esse alguém apareceu em imagem dentro dela, o mesmo olhar que vê o que ninguém mais ali via. Segurando as pontas, acolhendo-me por inteira, esse alguém me cobria de gratidão por estar ali e por ter suportado todo o caminho de rochas e flores por onde havia passado. 

As flores pareciam desmanchar na minha mão, de tanto amor que senti por esse alguém. Antes eu não notava, achava que precisava apenas existir, mas agora esse amor me faz seguir mais forte, me perdoar e me refazer.

Peguei a imagem da bolsa. Estampava uma carteira de identidade. Antes eu não gostava de como o cabelo saiu na foto e como o meio sorriso parecia estranho, mas hoje não reparo. O amor torna tudo mais bonito e leve. E não era uma identidade qualquer. Pertence ao meu alguém.

É minha identidade e esse alguém sou eu. Descobri no trem o real valor da palavra solitude, quando antes de sair eu achava ser solidão. Não sentia falta de mais nada quando me concentrei em me ouvir por dentro. 

Me abracei em um cumprimento espiritual, enquanto fechava os olhos afetados pelo afeto do abraço do Sol, que também fez questão de participar desse momento de júbilo pessoal. Sorri quando vi pela janela que chagara ao meu destino. E ele seria fabuloso.

21 novembro 2017

Arremates, descosturas e remendos

Na costura, retroceder significa enraizar, mas só é reforçado com linha o ponto que deve ficar. Será que na vida, vale a pena retroceder algo que seria melhor desmanchar?


Entre pontos saltados e calor, está uma frenética eu querendo terminar um vestido com tecido que a máquina não reconhece, e por sua vez se faz de mal entendida e costura tudo na doida, sem galantear.

Também está na minha mão direita um descosturador (ou abre casas, aquele que tem um ganchinho e bolinha em uma das pontas), pronto para desmanchar mais uma reta de pontos desajeitados. Com um pouco de dificuldade no começo, vou puxando a linha que corre reta.

Meu erro foi dar um arremate no tecido quando começou o estrondo da máquina, quando eu sabia desde o começo que a costura não ia sair lá grande coisa. Dei retrocesso, um bem selvagem, apostando todas as minhas fichas.

Lembrei de algumas falhas tentativas de aproximação com pessoas difíceis que eu tive. Sabia que era só para tentar, dar um alinhavo, mas eu arrematava, retrocedia e retrocedia, intensamente.

Nem sempre era eu a costureira. Às vezes eu era só o tecido, sendo ali cosicado com linha forte. Tecido fino que desfia, hein! Sempre deixava escapar. O arremate desmanchado tem uma amartia: Depois de puxar as linhas, o tecido fica fragilizado e com pequenos buraquinhos. Se for fino e desfiante, pior. Pode até rasgar. E rasgou. Costurices da vida.

Entretanto sou costureira dos meus próprios sonhos. Peguei esse frágil pano e prometo remendar aos pouquinhos durante meu tempo livre. Vai ficar okay outra vez, sabe. Pregarei até florzinhas feitas de fitas coloridas. Das infinitas cores da minha resiliência.


24 outubro 2017

Tempo de muda


Sabe como é se sentir como uma planta sem folhas? Era como eu me senti esses dias.
Observei no jardim uma plantinha que um dia fora uma roseira vívida e cheia de cores, que agora segue lutando sem as folhas.
Lembrei das minhas amigas que um dia estiveram doentes e se sentiram fisicamente e emocionalmente como essa plantinha. A minha identificação era só por dentro. E era bem rente a história da planta: Toda semana noto que surgem folhinhas e logo no outro dia caem, somem, ela volta a ser só caule.
Assim eu segui, desiludida, ainda viva, porém com os sonhos corrompidos. 
Todo dia eu peço a Deus para que devolva a alegria dessa planta. Essa semana, ela já tem folhas novamente, assim como eu. E eu aperto os olhos de fé para que elas não caiam, para que seus sonhos se renovem. É tempo de muda. São tempos difíceis...
E sabe o que eu notei também sobre a plantinha? É que quando as folhas caem, é que ela tem que ser mais forte e resiliente. Porque? Incansavelmente ela luta na ausência de suas folhas, continua ali, de pé, diante da perda e dos desafios do vento e do sol. E é nela que eu devo me espelhar, porque eu quero ser forte como as plantas no tempo de muda. E eu quero que tu seja também, porque tu vai inspirar alguém como a plantinha me inspira.

01 outubro 2017

Meu Satélite


Quando anoitece quase que de repente e me sinto sozinha, te vejo em busca de completude e me enamoro por cada lesão do teu corpo celeste. A luz que tu veste, me reverte.

Ah se soubesses que espero pousar em ti quando fita em mim um flash pálido para dourar-me as dores da existência.

E quando ninguém percebe a minha aparição terrestre, tu bordas em mim teu brilho, como se fosse mandado para estar a me observar.

De dia me encontro em ânsia por ver-te em amarelo, a provocar-me torcicolos, querendo te admirar. Satélite meu, em solitude te imito.

Só sou só porque não habito nas estrelas.

06 setembro 2017

Ciclos primaveris



Na dor me vejo florescer
Pulsante
Latente
Dor interior
Ciclos entre tons vibrantes e crus
De amor escarlate
Intensidade
Intencional
Sem querer
É época de muda
E dói florescer
Vivo, resisto
Sou raiz, sou ciclo
Sou flor, espinho
Ainda há primavera
Toda vez que doer