24 outubro 2017

Tempo de muda


Sabe como é se sentir como uma planta sem folhas? Era como eu me senti esses dias.
Observei no jardim uma plantinha que um dia fora uma roseira vívida e cheia de cores, que agora segue lutando sem as folhas.
Lembrei das minhas amigas que um dia estiveram doentes e se sentiram fisicamente e emocionalmente como essa plantinha. A minha identificação era só por dentro. E era bem rente a história da planta: Toda semana noto que surgem folhinhas e logo no outro dia caem, somem, ela volta a ser só caule.
Assim eu segui, desiludida, ainda viva, porém com os sonhos corrompidos. 
Todo dia eu peço a Deus para que devolva a alegria dessa planta. Essa semana, ela já tem folhas novamente, assim como eu. E eu aperto os olhos de fé para que elas não caiam, para que seus sonhos se renovem. É tempo de muda. São tempos difíceis...
E sabe o que eu notei também sobre a plantinha? É que quando as folhas caem, é que ela tem que ser mais forte e resiliente. Porque? Incansavelmente ela luta na ausência de suas folhas, continua ali, de pé, diante da perda e dos desafios do vento e do sol. E é nela que eu devo me espelhar, porque eu quero ser forte como as plantas no tempo de muda. E eu quero que tu seja também, porque tu vai inspirar alguém como a plantinha me inspira.

01 outubro 2017

Meu Satélite


Quando anoitece quase que de repente e me sinto sozinha, te vejo em busca de completude e me enamoro por cada lesão do teu corpo celeste. A luz que tu veste, me reverte.

Ah se soubesses que espero pousar em ti quando fita em mim um flash pálido para dourar-me as dores da existência.

E quando ninguém percebe a minha aparição terrestre, tu bordas em mim teu brilho, como se fosse mandado para estar a me observar.

De dia me encontro em ânsia por ver-te em amarelo, a provocar-me torcicolos, querendo te admirar. Satélite meu, em solitude te imito.

Só sou só porque não habito nas estrelas.

06 setembro 2017

Ciclos primaveris



Na dor me vejo florescer
Pulsante
Latente
Dor interior
Ciclos entre tons vibrantes e crus
De amor escarlate
Intensidade
Intencional
Sem querer
É época de muda
E dói florescer
Vivo, resisto
Sou raiz, sou ciclo
Sou flor, espinho
Ainda há primavera
Toda vez que doer


12 agosto 2017

Das coisas que eu deixei para trás


Das coisas que eu deixei para trás, a velha meia arrastão que não diz mais nada sobre mim, os álbuns do Justin Bieber, os desenhos que nunca concluí, os recibos de compras passadas, a caixinha de lembranças de 2010, o tumblr, que hoje diz mais sobre fotos rasas que sobre textos profundos, a coleção de etiquetas de roupas, o apego por lembranças materiais.

Ficou para trás os sutiãs de enchimento, as lágrimas de baixa estima, as flores tóxicas do caminho onde andei, os saltos que não me fazem mais mulher do que eu já sou, os arquivos empoeirados, a pinça de depilar o buço, o excesso de "amigos" nas redes sociais, as revistas teen com 500 mil dicas para agradar meninos, o lixo mental, o acúmulo dos remédios e as receitas.

Se ficou para atrás até o cachorro mais amado, os ursinhos de pelúcia que hoje provocam espirros, a camisa da banda preferida, o batom vermelho perdido do ônibus, porque não deixar lá também as mágoas de desamor, os receios com o corpo, os bloqueios sentimentais e o tabu de ser livre?

Das coisas que eu deixei para trás, ficou apenas o trivial, o pó das estrelas, as bonecas na prateleira, os tênis de caminhada, as fotos de luas, a flor seca dentro do livro de cabeceira, o aroma do sabonete alma de flores dentro da gaveta de meias, as linhas do crochê que ainda ei de aprender, a playlist de vídeos de ASMR no youtube, os desenhos pregados com durex na parede e a infinidade de momentos onde eu não tirei foto, mas que nunca esquecerei das fotografias do fato.

Das coisas que eu deixei para trás, a mais pesada foi o auto julgamento, aquela coisa que me empurrava para baixo quando tudo que eu queria era voar. Sai sem olhar para trás quando deixei aquela insegurança no passado e segui plena, sozinha, cheia de graça e luz.

10 agosto 2017

Lunar

Lua em câncer
Loba pulsante
Satélite das flores
Corta o cabelo na minguante
Na cheia chora
Uiva, ri, comemora
8 e 80, ao infinito e além
É venusiana, é eclipse
Mas é estrela também
Mais um ciclo
Dor, sangue santo
Do espaço se ouve
Cantarolando, dançando
Batendo asas, borboleteando
É luna, lunática
Circular, circunflexa, aguda, invisível
Tudo e nada
Estonteante, imperceptível
Lunar, loba, floral
Mulher afinal